Série As Flores do Mao – 2016: O golpe do Ano do Macaco de Fogo e a epidemia de Dengs

A burguesia brasileira em 2016, ano do Macaco de Fogo pelo horóscopo chinês, esmerou-se em dar motivos para um reflorescimento de referências à teória e à geopolítica de Mao Tsé Tung, no âmbito do repertório à disposição das lutas da classe trabalhadora brasileira. E o fez com ações ora mais coerentes, ora mais contraditórias, em relação às linhas maiores do capital internacional, estas tão prejudiciais à imensa maioria da humanidade. E neste momento de crise violenta da globalização capitalista, sacudida pelo fracionamento da União Europeia e pela vitória  do nacionalismo de Trump. Tem-se, assim, num país de dimensões tão continentais quanto às da China, e com desigualdades sociais similarmente profundas àquelas do contexto de origem do maoísmo, uma sequência de movimentos da burguesia nativa os quais são sobremaneira propícios à conscientização da classe trabalhadora quanto aos limites do Estado burguês no Brasil.

O impedimento da presidenta Dilma Rousseff permite primeiramente uma verossímel classificação teórica do mesmo como golpe de estado parlamentar/midiático/empresarial e judicial. Episódio que fenomenicamente atualizou o pouquíssimo apreço efetivo das classes dominantes pela soberania popular, tão celebrada na formalidade do direito pátrio. De modo particularmente grosseiro e oportunista, as classes e frações de classes dominantes não tiveram sequer o decoro formalista de aguardar o cumprimento do mandato legítimo e o calendário eleitoral regular, como ocorreu, por exemplo, em conflito semelhante, na vizinha República Argentina. O afã pela aplicação de um programa ultra-neoliberal e anti-povo, com pretensões duradouras, não permitiu aqui essa civilidade cerimoniosa. Indecências e imputações de responsabilidades que, entre brutalidades de princípios e rigores de formalismo típico das tradições do Extremo Oriente, permitem associações à literatura, como por exemplo, ao conto de Jorge Luís Borges “O descortês mestre-de-cerimônia Kotsukê-No-Sukê”, do livro “História universal da infâmia”.

Alinhado à “conivência passiva” da gestão de Barack Obama e Hillary Clinton com os golpes de estado mais ou menos “suaves” que ocorreram ou foram ensaiados na América Latina (Honduras, Paraguai, Equador e Bolívia), no Egito, Ucrânia e na Turquia, como já apontaram vários analistas de relações internacionais, o que seria uma coerência relativamente ao neocolonialismo contemporâneo, o impedimento da Presidenta Dilma deixa agora as elites dominantes brasileiras em suspense diante do contraditório causado à globalização capitalista pela eleição de Donald Trump.

Por outro lado, em termos da tradição lesa-pátria da burguesia nativa, tem-se um conjunto de medidas de primeira hora, anunciadas e/ou já aprovadas, que reforçam aquele procedimento histórico. A mudança de regime da exploração do pré-sal e medidas como a adoção no governo de “softwares” de licença restrita ao invés dos liberados antes em uso, bem como a ampliação das possibilidades de aquisição de terras por estrangeiros, entre outras, o comprovam. Até mesmo as elites feudais e a burguesia do Império Chinês apresentaram mais resistência à dominação externa. E, mesmo assim, estas foram  responsabilizadas, durante o processo revolucionário, pelos prejuízos à nação advindos destas entregas. Esta fatura por algum nacionalismo objetivo poderá ser cobrada mais cedo do que pareceria provável, dada a crise já referida da globalização. A tragicomédia do travestimento nacionalista no Brasil – onde as cores nacionais foram adotadas pelos favorecedores da transnacionalização dependente – lembram criações clássicas da ópera chinesa tradicional.

E um terceiro ponto de referências extremo-orientais capaz de renovar um maoísmo brasileiro é a decisão do capital industrial de não fugir à luta com seu concorrente estatal-capitalista chinês. A ideia brilhante e lucrativa é reduzir o custo do trabalho no país, assemelhando-o ao dos chineses pela redução dos parcos ganhos indiretos que são os serviços e a previdência públicos. Sem, é claro, os ganhos nacionalistas que a República Popular oferece aos seus cidadãos. Há certo heroísmo patético nesta bravura industrial com o sangue dos outros. Tal reducionismo pode viabilizar, com suor e lágrimas, a indústria brasileira numa época de desindustrialização geral e capitalismo financeiro. Uma epidemia de Dengs. Resta observar como a economia de mercado interno, considerável no Brasil, reagirá diante desta matriz de viés exportador. Pode ocorrer uma revolta rápida dos donos dos bazares ligados a religiosos exaltados, à moda iraniana. Ou o retorno do movimento de massas após um afastamento protetivo, numa nova versão da Longa Marcha.

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